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Sobre a Primeira Infância

Sobre a Primeira Infância

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(Por Paloma Vega de Matos Martins. Abril, 2018)*

O universo do desenvolvimento infantil é imenso. Não é possível pensar nas crianças, especialmente na primeira infância, dos zero aos seis anos, sem pensar em seus ambientes mais importantes: a casa e a escola.

Quarta-feira, Março 13th, 2019

O universo do desenvolvimento infantil é imenso. Não é possível pensar nas crianças, especialmente na primeira infância, dos zero aos seis anos, sem pensar em seus ambientes mais importantes: a casa e a escola.

O universo do desenvolvimento infantil é imenso. Não é possível pensar nas crianças, especialmente na primeira infância, dos zero aos seis anos, sem pensar em seus ambientes mais importantes: a casa e a escola.

Nós, adultos, tendemos a acreditar que já sabemos tudo sobre as crianças. Ao mesmo tempo, nos surpreendemos, constantemente, com situações ou perguntas que não sabemos como responder, como lidar. As crianças vêm sem manual. Que bom! Assim podemos descobrir junto com elas!

Partindo do que já conhecemos, num contexto geral, considerando, inclusive, muitos estudos nas áreas de educação e saúde (sem perder de vista que cada criança é um universo), vamos lembrar um pouco sobre o que acontece com as crianças entre zero a três anos, fase que chamamos, na área da saúde, de primeiríssima infância e de três a seis anos de idade, fase em que passa a se relacionar com outras pessoas, muito importantes, além dos pais (ainda que já frequente escola/berçário/creche, desde muito cedo, nesta fase há uma abertura maior para uma ampliação em suas relações, uma disposição e um interesse maior por outras pessoas, além dos pais).

Donald Winnicott, que foi um importante teórico do desenvolvimento emocional, pediatra e psicanalista, propôs pensar a infância como a base para a saúde mental e para a maturidade, para a formação do adulto que pode identificar-se com a sociedade sem perder o sentido de sua importância pessoal.  É a fase em que se inicia a formação da personalidade, da identidade de cada indivíduo e os pais e professores/cuidadores são modelo, referência, “espelho”. As relações que se estabelecem são estruturantes da personalidade.

No início da vida, logo após o parto, em um dos primeiros momentos com a mãe, o bebê vai ser alimentado. É por meio de sua sucção que a produção primeiro do colostro e depois do leite vai se dar. Desde esse início já há uma relação, uma troca, uma interação, na qual há uma alimentação - nutrição para o corpo do bebê, que neste início, só necessita do leite materno e “nutrição emocional”, fundamental para o bebê, para a sobrevivência e desenvolvimento físico e psíquico, mas também para a mãe, que vai inaugurar um novo papel/lugar social, de mãe (ainda que não seja mãe de primeira viagem, já que cada filho traz uma nova “maternagem”). Neste sentido, o bebê já nasce com “competências” para se relacionar, para trocar. Ele participa, ativamente, de sua alimentação. Isto é importante ser considerado. Mãe e filho vão percebendo, vão estabelecendo um ritmo, uma troca.

Todo esse começo de vida do bebê é “corporal”, sensorial. Gradualmente, por meio da relação com a mãe, ele vai se reconhecendo, se diferenciando, se subjetivando... Vai entendendo que ele é uma pessoa, diferente da mãe. Descobre que tem também um pai. (Considerando todas as novas configurações familiares, inclusive as famílias monoparentais, em que o bebê, aqui, irá descobrir que a mãe também tem outros interesses na vida, para além dele). 

O que acontece, nesta primeira fase, é a “partida” de um estado de fusão e até mesmo de “confusão” em direção a uma diferenciação, a um reconhecimento de si e do Outro (Outro, com letra maiúscula, que implica no reconhecimento de outra pessoa e da “cultura”, do mundo no qual está inserido).

Quanta coisa acontece nesses primeiros anos de vida! Quanta coisa é anterior à aquisição da linguagem verbal, da possibilidade de se comunicar, de representar, por meio da fala (que se dá em torno dos dois anos de idade).

Todo o caminho percorrido pelo bebê e depois pela criança, é em direção à aquisição de autonomia, à possibilidade de fazer escolhas. As brincadeiras são “aliadas” importantíssimas no desenvolvimento do vínculo, da possibilidade de a criança explorar o ambiente, fazer escolhas e elaborar os sentimentos resultantes de situações vividas, por vezes, bastante intensas.

Se voltarmos ainda mais no tempo, vamos lembrar que a relação com os pais já começa no período da gestação. Desde o quinto mês da gestação, o bebê, que está se formando, já é capaz de ouvir o que se passa no ambiente, fora do corpo da mãe. A mãe já é capaz de sentir o bebê se movimentar e logo as pessoas que estão por perto podem ver e sentir os movimentos do bebê, que no terceiro trimestre da gestação, são por vezes, bem fortes!

Primeiro a sustentação do pescoço, rolar, sentar, engatinhar, aquisição da marcha, as primeiras palavras, as primeiras frases, a retirada das fraldas – aquisição do controle dos esfíncteres... A cada conquista a criança (e os pais e cuidadores) vibra de felicidade! Pessoalmente acredito que a aquisição da marcha é a maior e mais feliz das conquistas! Como a criança fica feliz! Que momento delicioso de acompanhar!

No plano da alimentação também vai havendo uma ampliação, gradual, de experimentações e descobertas, de sabores, cheiros, texturas...  Até o momento da possibilidade de fazer escolhas... Se bem que, desde cedo os bebês já escolhem o que gostam mais e o que não gostam, não?! Fazendo caretas, cuspindo, fechando mesmo a boca, para certos alimentos... Aqui é bem importante a oferta, de diferentes alimentos, com respeito ao ritmo do bebê e da criança pequena... É o adulto quem procura se adaptar ao ritmo da criança, e não o contrário!

O momento das refeições é sempre privilegiadíssimo para que haja também a troca, a “nutrição emocional”. As cantigas, as brincadeiras de “aviãozinho” ... Desde a amamentação, fase fundamental desta “nutrição afetiva/emocional”, em que acontecem intensas trocas, até a oferta de outros alimentos, como sucos, frutas e papas salgadas ou da comida em pedaços, que a própria criança experimenta segurar... São todos momentos de “nutrição emocional” também.

A escolha que os pais/cuidadores fazem dos alimentos (e/ou complementos) que vão oferecer também é muito importante. Uma criança bem nutrida, física e emocionalmente, apresenta grandes chances de ser feliz! - Considerando que felicidade está relacionada ao sentimento de pertencer, de ser amada e de ser capaz, inclusive de fazer boas escolhas, para si e para os Outros – O ambiente, é fundamental! Estas “boas nutrições” estão relacionadas também ao desenvolvimento cognitivo e social, ao bom desempenho e experiência escolar. Este é, de fato, um processo, amplo e contínuo.

A criança pequena está se conhecendo e conhecendo o mundo, a partir da relação com os adultos, que a auxiliam a atribuir significado, dar sentido às experiências. O aprendizado se dá, em grande medida, por meio de imitações. O Outro é referência.

O desenvolvimento em todos os seus aspectos: físico, emocional, social, vai se dando por meio do reconhecimento, por parte da criança, do lugar que ocupa na família – se é filho mais velho ou mais novo, por exemplo – na escola, em que vai descobrindo-se único, diferente, mas também próximo, com semelhanças em relação aos colegas e mesmo em relação aos professores/cuidadores. 

O aspecto emocional tem grande importância nesta fase, já que por meio dos sentimentos, que vão adquirindo significado, que a criança se sente “ganhando uma forma”.

Esta fase inicial é marcada por grande impulsividade, é o adulto quem ensina o que pode ou não, o “freio vem de fora”. Ensina regras básicas de convivência. Vai ajudando a estruturar o mundo interno da criança. A questão dos limites, desde muito cedo, é bem importante. Costumo dizer que toda criança precisa de afeto, acolhimento e limites firmes, na medida certa.

Winnicott diz que a criança mais velha é capaz de buscar e encontrar experiência emocional de acordo com suas necessidades internas, mas a criança pequena precisa de algo especial nas pessoas que a cercam, para que seu desenvolvimento prossiga; precisa de afeto, de atenção, de vínculos com adultos atentos e amorosos. Precisa muito de experiências de continuidade, de estabilidade. 

Esta é também uma fase marcada por fantasias. A criança tem que lidar com os próprios sentimentos, descobrindo-os e adequando-os à realidade. Ao oferecer um bom ambiente, no qual há possibilidade de acolhimento, compreensão de suas necessidades, onde há espaço para exploração e descoberta das suas habilidades, escola e pais possibilitam este ajuste das fantasias à realidade.

Vale lembrar que os papéis da escola e da família são complementares e, que a necessidade da criança é a de ter pais (ou substitutos) com quem possa se identificar. A escola amplia e dá continuidade ao que é experienciado na família, representa um apoio, por meio de relações satisfatórias e oferece, neste sentido, um bom ambiente emocional.

A partir da referência do adulto, como modelo, a criança desenvolve sua autoimagem, sua autoestima. A brincadeira tem grande importância, já que permite a elaboração de sentimentos, conflitos, realizar desejos insatisfeitos, experimentar normas culturais e desempenho de papéis (de pai, mãe, professor, médico). Por meio da brincadeira desenvolve-se emocional e socialmente e compreende seu lugar no mundo. O desejo de ser adulta a coloca em movimento, em direção ao crescimento, em direção ao mundo adulto.

São comuns as oscilações de humor, já que ainda não estão claras as diferenças entre fantasia e realidade. Aos poucos compreende que há uma realidade externa, por vezes, contrária ao seu desejo – as famosas frustrações! Há raiva e culpa diante desses sentimentos e podem, por exemplo, quebrar um brinquedo, num “acesso de raiva” – aqui, é importante contar com um adulto que a ensine a reparar o dano causado, consertando, se possível, o brinquedo que foi quebrado – É a oportunidade de ensinar que pode sentir raiva sim, mas não pode quebrar coisas ou machucar pessoas - Oportunidade de ensinar a lidar com os intensos sentimentos diante das frustrações e entender que sua raiva “não tem o poder de destruir o mundo”.

Há também uma oscilação entre maturidade e imaturidade, independência e dependência. Podemos encontrar crianças bastante independentes e maduras aos cinco anos, mas que regridem diante de algum conflito e se comportam como se tivesse dois anos.

Neste caminho de descobertas, vai havendo a compreensão de que meninos e meninas são diferentes (a descoberta da diferença sexual), são comuns os momentos em que se interessam em ver os órgãos sexuais do coleguinha, por exemplo e as fantasias de que as meninas têm um “pinto que ainda vai crescer ou tinham um pinto que foi cortado, ou de que os meninos podem ter seu pinto cortado”. Novamente aqui a importância de que o adulto não reforce estas fantasias, mas sim que ajude os pequenos a entender a realidade!

É fundamental que a criança aprenda a lidar com limites, a partir de regras claras, consistentes, coerentes. Ela é capaz de tolerar frustrações e os limites são estruturantes. No entanto, se houver grande rigidez, a criança pode ficar impossibilitada de experimentar, crescer e, por outro lado, se houver muita permissividade a tendência é a de ficar a mercê de sua voracidade e ficar insegura, imatura, inconsistente. Necessária a difícil tarefa, para o adulto, de encontrar o “meio termo”.

Em torno dos cinco, seis anos, a criança já possui maior compreensão da diferença entre realidade e fantasia, de si e dos Outros. O aprendizado se dá de maneira muito rápida. O adulto deve estar atento aos intensos sentimentos da criança, perceber que mudam em caráter e tipo, conforme se aproxima a idade escolar.

Portanto, para que a criança possa se desenvolver bem e feliz é fundamental contar com figuras afetivas de referência, estáveis, que façam boas escolhas e a ensinem a escolher também. E que viva em ambientes seguros, onde haja estabilidade emocional. Neste sentido, a criança que se sente feliz, sente segurança para explorar os ambientes e as relações, para aprender, para enfrentar dificuldades e desafios. É capaz de se distanciar das figuras de apoio, porque sabe que tem para onde voltar se precisar e porque confia em si e nas habilidades já adquiridas.

Referências bibliográficas:

A Saúde Mental na Atenção à Criança e ao Adolescente: os desafios da prática pediátrica/ coordenadora Vera Ferrari Rego Barros. São Paulo. Ed. Atheneu, 2016. Sociedade de Pediatria de São Paulo – Departamento de Saúde Mental. Vários autores.
Holditch, Lesley – Compreendendo seu filho de 5 anos; tradução Leana Aymoré Jacob. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992.
Miller, Lisa – Compreendendo seu filho de 4 anos; tradução Ana Maria Sarda. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992.
Sanches, Renata Meyer – Conta de novo, mãe: Histórias que ajudam a crescer. São Paulo: Escuta, 2010.
Winnicott, D. W. – Thinking about children por H. Karnac (Books) Ltd., 1996. Publicação em língua portuguesa pela Ed. Artes Médicas Sul Ltda.

*Psicóloga Clínica. Especialista em Psicologia Hospitalar, pela Secretaria de Estado da Saúde/Instituto de Infectologia Emílio Ribas e em Psicoterapia Psicanalítica, pela Universidade de São Paulo. Capacitada em Responsabilidade Social e Terceiro Setor, pela Fundação Instituto de Administração e em Relações Pais-Bebês, pelo Instituto Sedes Sapientiae.

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